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CAPÍTULO 17

Do supremo, o inferior tem apenas ciência da existência

Do estado que o sucede, intimidade ou admiração

Do estado seguinte, temor ou desprezo

Não havendo suficiente confiança, surge a desconfiança

Quem valoriza a palavra, realiza a obra sem deixar rastros

Assim, o povo achará que surgiu por si, naturalmente

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CAPÍTULO 18

Quando se perde o Grande Caminho

Surgem a bondade e a justiça26

Quando aparece a inteligência

Surge a grande hipocrisia

Quando os seis parentes27 não estão em paz

Surgem o amor filial e o amor paternal

Quando há desordem e confusão no reino

Surge o patriota

26 São duas das cinco virtudes do taoísmo: bondade, justiça, sabedoria, polidez e fidelidade.

27 Seis Parentes: mãe-filho representa a relação superior-inferior, irmão-irmão representa a relação em

mesmo nível, marido-esposa representa a relação interno-externo.

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CAPÍTULO 19

Anule o sagrado e abandone a inteligência

E o povo cem vezes se beneficiará

Anule a bondade e abandone a justiça

E o povo retornará ao amor filial e ao amor paternal

Anule a engenhosidade e abandone o interesse

E não haverá mais ladrões nem roubos

Se estas três frases ditas não são o suficiente

Então faça existir aquilo em que se possa confiar

Encontrando e abraçando a simplicidade

Reduzindo o egoísmo e diminuindo os desejos

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CAPÍTULO 20

No ensinamento pela supressão não há preocupações

Entre aceitar e repudiar qual a diferença?

Entre apreciar e desprezar qual a distância?

O que os homens temem, poderiam não temer?

Abandone isso antes que se esgote!

Os homens se agitam como um festejo na grande prisão

Ou como subir à varanda na primavera

Meu corpo não tem expressão

Como uma criança antes de nascer

Como a estrela Kuei28 que não tem onde se apoiar

As pessoas todas possuem em excesso

Somente eu aparento estar perdendo

Sou como um ignorante que tem o coração puro

Os medíocres vivem lúcidos

Somente eu aparento estar confuso

Os medíocres vivem lúcidos

Somente eu estou introspectivo

Indefinido como uma infinita noite silenciosa

As pessoas todas têm um ego

Somente eu o ignoro considerando-o precário

O que quero que me distinga dos demais

É valorizar o alimentar-se da Mãe29

28 KUEI: Alfa da constelação Ursa Maior. Representa o Espírito Primordial dos seres.

29 “Alimentar-se da Mãe” refere-se a alimentar-se daquilo que antecede tudo, é o Sopro Uno do Céu-

Anterior da alquimia taoísta.

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CAPÍTULO 21

A abrangência da virtude do orifício30 é seguir apenas o Caminho

O Caminho, enquanto existência é indistinguível e indescritível

Dentro do indistinguível e indescritível há uma existência

Dentro do indistinguível e indescritível há uma imagem

E dentro dessa profunda obscuridade há uma essência31

Essa essência é absolutamente autêntica

E dentro dela há uma prova32

Desde a antiguidade até hoje o seu nome nunca foi esquecido

E ele pode observar a beleza e a bondade de tudo

Como posso saber a causa da beleza e da bondade de tudo?

É através da prova

30 “Virtude do Orifício” significa a virtude do Vazio, da Não-Ação.

31 CHIN: Essência do Universo Manifestado.

32 HSIN: Prova; algo real e fiel à natureza do Caminho.

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CAPÍTULO 22

Curvar-se permite a plenitude

Submeter-se permite a retidão

Esvaziar-se permite o preenchimento

Romper permite a renovação

Possuir pouco permite a aquisição

Possuir muito permite a ganância

Por isso, o Homem Sagrado abraça a unidade

Tornando-a o modelo sob o céu

Não julga por si, por isso é óbvio

Não vê por si, por isso é resplandecente

Não se vangloria, por isso há realização

Não se exalta, por isso cresce

Só por não disputar, nada pode disputar com ele

Antigamente se dizia: “Curvar-se permite a plenitude”

Como poderiam ser palavras vazias?

Assim, ao alcançar a plenitude encontra-se o retorno

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CAPÍTULO 23

Falar pouco é o natural

Um redemoinho não dura uma manhã

Uma rajada de chuva não dura um dia

De onde provêm essas coisas?

Do céu e da terra

Se nem o céu e a terra podem produzir coisas duráveis

Quanto mais os seres humanos!

Por isso, quem segue e realiza através do Caminho adquire o Caminho

Quem se iguala à Virtude adquire a Virtude

Quem se iguala à perda, perde o Caminho

Convicção insuficiente leva à não convicção

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CAPÍTULO 24

Quem respira apressado não dura

Quem alarga os passos não caminha

Quem vê por si não se ilumina

Quem aprova por si não resplandece

Quem se auto-enriquece não cria a obra

Quem se exalta não cresce

Esses, para o Caminho, são como os restos de alimento de uma oferenda

Coisas desprezadas por todos

Por isso, quem possui o Caminho não atua desse modo

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CAPÍTULO 25

Há algo completamente entorpecido

Anterior à criação do céu e da terra

Quieto e êrmo

Independente e inalterável

Move-se em círculo e não se exaure

Pode-se considerá-lo a Mãe sob o céu

Eu não conheço seu nome

Chamo-o de Caminho

Esforçando-me por denominá-lo, chamo-o de Grande

Grande significa Ir

Ir significa Distante

Distante significa Retornar

O Caminho é grande

O céu é grande

A terra é grande

O rei33 é grande

Dentro do universo há quatro grandes, e o rei é um deles

O homem se orienta pela terra

A terra se orienta pelo céu

O céu se orienta pelo Caminho

O Caminho se orienta por sua própria natureza

33 WANG: Rei-Celeste (Deus-onipotente); simboliza a Consciência Real que está em toda parte.

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CAPÍTULO 26

A ponderação torna enraizado o leviano

A quietude torna governado o inquieto

Por isso o Homem Superior34 termina o dia de caminhada sem se afastar da ponderação

e dos recursos

Embora existam maravilhas em perspectiva

Permanece quieto e naturalmente transcendente

Como pode um senhor de dez mil veículos35 utilizar seu corpo levianamente sob o céu?

Ao ser leviano, perderia a raiz

Ao ser inquieto, perderia o governo

34 Djuen Tzé: Homem Superior – o homem que possui virtude e poder.

35 Na china corresponde ao senhor feudal; aquele que possui riqueza e responsabilidade.

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CAPÍTULO 27

A boa caminhada não deixa rastros ou pegadas

A boa palavra não deixa imperfeição para críticas

O bom cálculo não utiliza medida nem número

A boa porta não necessita de ferrolho para ser fechada

E não pode ser aberta

O bom nó não necessita de corda para ser atado

E não pode ser desatado

Assim, o Homem Sagrado

É constante e bondoso

Salva os homens e não abandona os homens

É constante e bondoso

Salva coisas e não abandona coisas

Isso se chama herdar a luz

O homem bom é mestre daquele que não é bom

O homem que não é bom é o recurso daquele que é bom

Quem não valoriza seu mestre e quem não ama seu recurso

Mesmo inteligente, permanece enormemente desorientado

A tudo isso denomina-se Maravilha Essencial

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CAPÍTULO 28

Conhecendo o masculino, resguardando o feminino

Sendo a ravina sob o céu

Sem se afastar da Virtude Eterna

Retornará a ser criança.

Conhecendo o branco, resguardando o negro

Sendo o modelo sob o céu

Sem se enganar com a Virtude Eterna

Retornará à Extremidade-Inexistente36

Conhecendo a glória, resguardando a humildade

Sendo o vale sob o céu

Sendo o vale sob o céu, completará a Virtude Eterna

E retornará a ser madeira bruta

A madeira bruta partida transforma-se em instrumentos

E o Homem Sagrado utiliza-os através de um regente

Isto tudo é um grande corte sem incisão

36 WU DJI: Extremidade-Inexistente; termo originado do I Ching, é o estado anterior da criação do

universo.

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CAPÍTULO 29

Para quem deseja possuir o mundo e age para isso

Vejo, não o conseguirá

O mundo é um recipiente espiritual

Que não se pode manipular

Quem o manipula, destrói

Quem o retém, perde

Pois as coisas

Caminham ou acompanham

Sopram quente ou sopram frio

São rígidas ou flexíveis

Ligam-se ou rompem-se

Por isso, o Homem Sagrado

Elimina o excesso

Elimina a opulência

Elimina a complacência

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CAPÍTULO 30

Aquele que utiliza o Caminho para auxiliar o senhor dos homens

Não utiliza a arma e a força, sob o céu

Pois esta atividade beneficia o revide

Onde o exército se instala, surgem espinhos e ervas secas

Por isso

O homem bom é determinado, porém cauteloso

Não utiliza a força para conquistar

É determinado sem se orgulhar

É determinado sem se envaidecer

É determinado sem se glorificar

É determinado sem se tornar excessivo

Isto é, determinado, porém sem se esforçar

Coisas exuberantes dirigem-se à velhice

Isso se chama negar o Caminho

Negando o Caminho irá falecer cedo

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CAPÍTULO 31

As boas armas

São recipientes de desventura

Os seres as detestam

Por isso

Os que guardam o Caminho não as compartilham

O Homem Superior, na residência, honra o esquerdo

Na utilização da arma honra o direito

A arma é o recipiente da desventura

Não é o recipiente do Homem Superior

Seu uso é apenas para o inevitável

O superior é como uma chama serena

Por isso, não se maravilha

Ao maravilhar-se certamente teria prazer

Tal prazer mata o homem

Aquele que tem prazer em matar

Não pode triunfar sob o céu

Por isso

Assuntos venturosos valorizam o esquerdo

Assuntos funestos valorizam o direito

Sendo assim

O general-auxiliar encontra-se à esquerda

O general-superior encontra-se à direita37

Suas palavras são tratadas como rito fúnebre

Matam muitas pessoas

Por estas, chora-se de tristeza

A guerra vencida é tratada como rito fúnebre

37 No simbolismo do I Ching, a direção norte está nas costas do homem enquanto a direção sul está na

frente. Sendo assim, a direção à esquerda é leste, corresponde à aurora, o lado da vida. A direção à direita

é oeste, corresponde ao acaso, o lado da morte.

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CAPÍTULO 32

O Caminho é eterno e não tem nome

É genuíno e, embora pequeno,

O mundo não tem coragem de dominá-lo

Se reis e príncipes pudessem preservá-lo

Os dez mil seres iriam por si próprios obedecer

Quando o céu e a terra unem-se

Para escorrer o doce orvalho

O povo não pode interferir nisso, que por si é uniforme

O princípio domina a existência e o nome

Então o nome passa a existir

E irá também saber cessar

Sabendo cessar não perecerá

A relação do mundo com o Caminho

É como a dos riachos e vales

Com os rios e mares

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CAPÍTULO 33

Quem conhece os homens é inteligente

Quem conhece a si mesmo é iluminado

Vencer os homens é ter força

Quem vence a si mesmo é forte

Quem sabe contentar-se é rico

Agir fortemente é ter vontade

Quem não perde a sua residência, perdura

Quem morre mas não perece, eterniza-se

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CAPÍTULO 34

O Grande Caminho é vasto

Pode ser encontrado na esquerda e na direita

Os dez mil seres dele dependem para viver

E ele não os rechaça

Conclui a obra sem mostrar a sua existência

É o manto que cobre os dez mil seres, sem agir como senhor

Podendo ser chamado de pequeno

Os dez mil seres voltam para ele, sem que aja como senhor

Podendo ser chamado de grande

Assim o Homem Sagrado nunca age como grande

Por isso pode atingir sua grandeza

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CAPÍTULO 35

Conservando a Grande Imagem

O mundo passa

Passa sem danos

Com tranqüilidade, serenidade e supremacia

A música e as iguarias

Param o viajante

As palavras que nascem do Caminho

São insossas, carecem de sabor

Olhar não é suficiente para vê-lo

Escutar não é suficiente para ouví-lo

Usar não é suficiente para esgotá-lo

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CAPÍTULO 36

Para querer iniciar o recolhimento

É necessário consolidar a expansão

Para querer iniciar o enfraquecimento

É necessário consolidar o fortalecimento

Para querer iniciar o abandono

É necessário consolidar o amparo

Para querer iniciar a subtração

É necessário consolidar o aumento

Isto se chama breve iluminação38

O suave e o fraco vencem o rígido e o forte

Os peixes não podem separar-se do lago

O reino que tem o instrumento afiado

Não pode colocá-lo à vista do homem

38 MING: iluminação, tem sentido de ampliação da consciência ou o enriquecimento de uma cultura.

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CAPÍTULO 37

O Caminho é uma constante não-ação

Que nada deixa por realizar

Se reis e príncipes pudessem resguardá-lo

Os dez mil seres iriam se transformariam por si

Porém, se na transformação despertassem desejos

Eu iria estabilizá-los através da simplicidade do sem-nome

A simplicidade do sem-nome também se inicia no não-desejo

O não-desejo traz quietude

O céu e a terra, por si, estarão em retidão