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CAPÍTULO 1
O caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante
O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe de dez mil coisas
Assim, a constante não-aspiração3 é contemplar as Maravilhas4
E a constante aspiração5 é contemplar o Orifício6
Ambos são distintos em seus nomes mas têm a mesma origem
O comum entre os dois se chama Mistério7
O Mistério dos Mistérios é o Portal para todas as Maravilhas
3 Não-aspiração: significa a ausência de intenção.
4 MIAO: Maravilha, significa as manifestações do Caminho.
5 Aspiração: significa a manutenção da vontade.
6 CHIAO: tem dois sentidos, 1º) Luz, Claridade ou Cor Branca; 2º) Orifício, Cova ou Abertura.
7 SHUEN: tem dois sentidos, 1º) Mistério; 2º) Cor Negra. SHUEN é a convergência e a anulação dos
opostos.
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CAPÍTULO 2
Quando os seres sob o céu reconhecem o belo como belo
Então isso já se tornou um mal
E reconhecendo o bem como bem
Então já não seria um bem
A existência e a inexistência geram-se uma pela outra
O difícil e o fácil completam-se um ao outro
O longo e o curto estabelecem-se um pelo outro
O alto e o baixo inclinam-se um pelo outro
O som e a tonalidade são juntos um com o outro
O antes e o depois seguem-se um ao outro
Portanto
O Homem Sagrado8 realiza a obra pela não-ação9
E pratica o ensinamento através da não-palavra10
Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
Concluem a obra sem se apegar
E justamente por realizarem sem apego
Não passam
8 SEM ZEN: Homem Sagrado. Originado no conceito da sagração do homem, que tem sentido de união
da Consciência Pura com a Vida Infinita.
9 WU WEI: Não-Ação; tem sentido de ação sem intenção.
10 WU YEN: Não-Palavra; tem sentido de palavra sem intenção.
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CAPÍTULO 3
Não valorizando os tesouros, mantém-se o povo alheio à disputa
Não enobrecendo a matéria de difícil aquisição, mantém-se o povo alheio à cobiça
Não admirando o que é desejável, mantém-se o coração alheio à desordem
O Homem Sagrado governa
Esvazia seu coração11
Enche seu ventre12
Enfraquece suas vontades13
Robustece seus ossos
Mantém permanentemente o povo sem conhecimentos e desejos
Faz com que os de conhecimento não se encorajem e não ajam
Sendo assim
Nada fica sem governo
11 SHIN: Coração tem sentido de razão, emoção e intenção.
12 FU: Ventre tem sentido de vitalidade.
13 DZE: Vontades tem sentido de desejos.
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CAPÍTULO 4
O Caminho é o Vazio14
E seu uso jamais o esgota
É imensuravelmente profundo e amplo, como a raiz dos dez mil seres
Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
Límpido como a existência eterna
Não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste15
14 CHUN: Vazio ou Harmonia. Vazio é a Natureza do Caminho; Harmonia é a Manifestação do Caminho.
15 HSIAN TI: HSIAN significa Imagem ou Forma; TI significa Rei. “HSIAN TI” é o nome atribuído ao
Rei Celeste – Deus Onipotente criador de todas as formas.
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CAPÍTULO 5
O céu e a terra não são bondosos
Tratam os dez mil seres como cães de palha16
O Homem Sagrado não é bondoso
Trata os homens como cães de palha
O espaço entre o céu e a terra assemelha-se a um fole
É um vazio que não distorce
Seu movimento é a contínua criação
O excesso de conhecimento conduz ao esgotamento
E não é melhor do que manter-se no centro17
16 DZOU GO: Cão de Palha representa no sacrifício o desapego do ser.
17 CHUN: Centro, Meio ou Interior.
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CAPÍTULO 6
O Espírito do Vale18 nunca morre
Isso se chama Orifício Misterioso19
A porta do Orifício Misterioso é a raiz do céu e da terra
Seja suave e constante
Usufruindo sem se apressar
18 GU SHIEN: GU significa Vale; SHEN significa Espírito. Espírito do Vale representa a Conciencia do
Vazio.
19 SHUEN SHUE: SHUE significa Orificio. Orificio Misterioso é o espaço onde o universo se cria e se
destrói. É o SHUEN GUAN (Portal Negro) da alquimia taoísta.
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CAPÍTULO 7
O céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros
Assim
O Homem Sagrado deixa seu corpo para trás e o Corpo20 avança
Além do corpo, o Corpo permanece
Através do não-corpo, conclui o Corpo
20 SZE: O Corpo aqui tem sentido de corpo espiritual.
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CAPÍTULO 8
A bondade sublime é como a água21
A água, na sua bondade, beneficia os dez mil seres sem preferência
Permanece nos lugares desprezados pelos outros
Por isso assemelha-se ao Caminho
Viva com bondade na terra
Pense com bondade, como um lago
Conviva com bondade, como irmãos
Fale com a bondade de quem tem palavra
Governe com a bondade de quem tem ordem
Realize com a bondade de quem é capaz
Aja com bondade todo o tempo
Não dispute, assim não haverá rivalidade
21 SUE: Água. No I Ching, é o primeiro elemento da natureza, representa o princípio. Na alquimia taoísta
corresponde ao Sopro Primordial.
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CAPÍTULO 9
O que é mantido cheio não permanece até o fim
O que é intencionalmente polido não é um tesouro eterno
Uma sala cheia de ouro e jade é difícil de ser guardada
Riqueza e nobreza somadas à arrogância
Trazem para si a própria culpa
Concluir o nome, terminar a obra, retirar o corpo
Este é o Caminho do Céu
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CAPÍTULO 10
Quem conduz a realização do corpo por abraçar a unidade
Pode tornar-se indivisível
Quem respira com pureza por alcançar a suavidade
Pode tornar-se criança
Quem purifica através do conhecimento do mistério
Pode tornar-se imaculado
Ame o povo e governe o reino através do não-conhecimento22
Ilumine e clareie os quatro cantos através da não-ação
Abra e feche a porta do céu através da ação feminina
O que gera e cria
Gera mas sem se apossar
Age sem querer para si
Cultiva mas sem dominar
Chama-se Misteriosa Virtude23
22 WU DZE: Não-Conhecimento tem sentido de conhecimento sem engenhosidade e malícia.
23 SHUEN TE: Misteriosa Virtude tem sentido de virtude oculta – um bem que ao é reconhecível pelos
outros.
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CAPÍTULO 11
Trinta raios convergem ao vazio do centro da roda
Através dessa não-existência
Existe a utilidade do veículo
A argila é trabalhada na forma de vasos
Através da não-existência
Existe a utilidade do objeto
Portas e janelas são abertas na construção da casa
Através da não-existência
Existe a utilidade da casa
Assim, da existência vem o valor
E da não-existência, a utilidade
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CAPÍTULO 12
As cinco cores tornam os olhos do homem cegos
As cinco notas tornam os ouvidos do homem surdos
Os cinco sabores tornam a boca do homem insensível24
Carreiras de caça no campo tornam o coração do homem enlouquecido
Os bens de difícil obtenção tornam a caminhada do homem prejudicada
Por isso, o Homem Sagrado se realiza pelo ventre e não pelo olho
Assim, afasta este e escolhe aquele
24 A relação entre cor, nota (musical) e sabor com os Cinco Movimentos:
Madeira = Azul = Mi = Ácido
Fogo = Vermelho = Sol = Amargo
Terra = Amarelo = Dó – Doce
Metal = Branco = Ré = Picante
Água = Preto = Lá = Salgado
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CAPÍTULO 13
O prestígio e a humilhação geram susto
A nobreza e a grande preocupação situam-se no corpo
O que são prestígio e humilhação?
Prestígio é inferior
Ao obtê-lo ficamos assustados
Ao perdê-lo ficamos assustados
Isto é o que quer dizer “o prestígio e a humilhação geram susto”
O que quer dizer “a nobreza e a grande preocupação situam-se no corpo” ?
A razão de eu ter esta “grande preocupação” é ter um corpo
Se não tivesse um corpo
Com que teria que me preocupar?
Por isso
Nobre é aquele que entrega o corpo ao mundo
A este o mundo pode se entregar
Quem ama faz do mundo o seu corpo
Neste o mundo pode confiar
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CAPÍTULO 14
Aquilo que se olha e não se vê, chama-se invisível
Aquilo que se escuta e não se ouve, chama-se inaudível
Aquilo que se abraça e não se possui, chama-se impalpável
Estes três não podem ser revelados
Por isso se fundem e se tornam um
Enquanto superior não é luminoso
Enquanto inferior não é vago
O Constante que não pode ser nomeado
É o retorno à não-existência
É a expressão da não-expressão
É a imagem da não-existência
A isso se chama indeterminado
Encarando-o, não se vê sua face
Seguindo-o, não se vê suas costas
Quem mantém o Caminho Ancestral
Poderá governar a existência presente
Quem conhece o Princípio Ancestral
Encontrará a ordem do Caminho
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CAPÍTULO 15
Os bons realizadores da antiguidade eram sutis
Maravilhosos, misteriosos e despertados
Eram profundos e não podiam ser compreendidos
E justamente por não poderem ser compreendidos
É preciso esforçar-se para ilustrá-los
Receosos como quem atravessa um rio no inverno
Cautelosos como quem teme seus vizinhos
Reservados como o hóspede
Solúveis como o gelo fundente
Genuínos como a madeira bruta
Vazios como os vales
Entorpecidos como as águas turvas
O turvo, através da quietude, torna-se gradualmente límpido
O quieto, através do movimento, torna-se gradualmente criativo
Aquele que resguarda este Caminho não tem desejo de se enaltecer
E justamente por não se enaltecer, mesmo envelhecido, pode voltar a criar
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CAPÍTULO 16
Alcançando o extremo vazio e permanecendo na quietude da extrema quietude
Os dez mil seres se manifestam simultaneamente
E, através disso, contemplamos o seu retorno25
Apesar da diversidade dos seres
Cada um deles pode retornar a sua raiz
O regresso à raiz se chama quietude
Quietude se chama retornar a viver
Retornar a viver se chama constância
Conhecer a constância se chama iluminação
Desconhecer a constância é a impropriedade que provoca o infortúnio
Quem conhece a constância é abrangente
Quem é abrangente pode ser coletivo
O coletivo tem o poder da criação
A criação tem o poder do céu
O céu tem o poder do Caminho
O Caminho tem o poder do eterno
Assim,
Mesmo perdendo o corpo, não irá perecer
25 FU: Retorno – Hexagrama FU do I Ching, representa, no auge da quietude, o nascimento da atividade.